sábado, 6 de novembro de 2010

Remente: A Própria


Dissolvida na minha mente me encontro, perdida entre afagos, lembranças, saudades que não sei bem definir. Descanso o corpo cansado sem conseguir arrancar do pensamento as dores que me afogam o peito, me queimam o sangue, me gelam a alma. Perco-me nas horas, o fio que me conduz pela noite desconhecida.
As lágrimas do passado dissipam-se nos sorrisos, as recordações baralham-me os sentidos, e o cheiro da madrugada embebeda-me a razão. Nada me resta para perder, a sanidade nunca entrou neste jogo nem nunca poderá entrar. Tantos cheiros, tantas conversas, tantas frases levadas pelo vento que nos assolou, horas demais, anos infinitos que nem dei por passar.
Assobio no silêncio perpétuo aquela música, aquela letra que nos fazia recordar do nosso canto, o nosso momento. E agora, agora sei que parei. Parei para me ver, para me sentir, para me saborear só um pouco mais antes de voltar a ler-te, tocar-te, aninhar-te. Só mais um pouco de mim, só mais uma história, só mais um filme, uma novela, só mais uma queda para saber de cor o agressivo do chão.
Deixa-me viver mais cinco minutos, escolher mais uns caminhos, mais uns destinos para que no fim tenha muito para te contar. Teus olhos reflectindo o meu orgulho, espelhos que um dia estilhacei sem pensar, partindo-te no mesmo instante em que me parti.
Depois de me definir, me redimir, me reconstruir será que voltas? Será…?
Tudo um dia tem um fim, o momento que fechamos o livro e deixamos de escrever, nada mais haverá a dizer. Fecho os olhos, imagino esse dia…
Construí um banco na estrada, onde me sento sempre que o caminho é demasiado penoso…nunca pensei que tivesse a medida para dois, e tu, só tu, encaixas bem demais nele.


 2007

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