Puxa de uma cadeira e senta-te por um momento. Vem ouvir o fim desta história, aquele em que ganhei e perdi, aquela em que te menti e enganei. Vem ouvir-me falar dos erros, do quanto foi perfeito e do que nada sobrou.
Senta-te, dá-te a essa luxo, será a ultima vez.
Tudo começou bem, conto de fadas que nunca a mim chamei. Não houveram bruxas nem feiticeiros malvados, e dos príncipes e princesas nunca ouvi falar. Puxa de um cigarro e deixa-te levar como se fosse a última vez que o mundo te deixasse parar. Pára...pensa...medita, acredita que nunca nada será como sempre imaginaste, nada nunca será tão perfeito como este momento. Penhorei a alma e o coração, corpo sucumbido pelas estradas confusas que nunca me abrandaram os passos. Tudo para que um dia aqui pudesse estar, mesmo que derrotada, a contar-te este final.
Coloquei as recordações numa prateleira tão alta, que nem as asas de um anjo conseguem alcançar. Rasgo a pele tentando sentir alguma dor, algo mais real que isto. Naufraguei vezes demais, e dos problemas fiz verdades, frases que me criaram e por anos a fio me moldaram. Não sou fácil, e a complexidade exige demasiado. Enfrentei os meus demónios, e de peito aberto lutei quando todos diziam que falharia.
Convido-te a sair, levando contigo os fantasmas, os erros, as memorias, a saturação, os conselhos e os sorrisos, das lágrimas fiz abismos.
Vem, senta-te, ouve o final da tua história, cala por fim a voz que te sussurra há noites demais. Nunca ninguém te disse que partir não era opção.
sábado, 29 de janeiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Entrelinhas
Conto nas entrelinhas aquilo que o orgulho foi capaz de calar. Os gestos desconfiados, as palavras trocadas, os sentimentos invertidos que construí numa defesa imaginaria que me pesa penosamente no corpo cansado. Não sei mais como escrever esta vangloriosa derrota, como se o medo talhasse as promessas e as mentiras que contei em busca do esquecimento. Talvez um dia eu perceba que estou aqui apenas por um momento, e que mais cedo ou mais tarde terei de fugir, esconder-me de tudo aquilo que sempre vi que poderia acontecer.
Perdi o caminho para casa, e as encruzilhadas são tantas... quantos becos poderá ter uma vida? Parecem milhares e a noite avizinha-se assustadoramente. Um dia vou baixar os braços, sentar-me no chão e contar os meus passos, quando cansaço por fim me vencer.
Um dia vou-te contar as entrelinhas... no dia que me levantar e voltar a caminhar.
Perdi o caminho para casa, e as encruzilhadas são tantas... quantos becos poderá ter uma vida? Parecem milhares e a noite avizinha-se assustadoramente. Um dia vou baixar os braços, sentar-me no chão e contar os meus passos, quando cansaço por fim me vencer.
Um dia vou-te contar as entrelinhas... no dia que me levantar e voltar a caminhar.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Rosa de Papel
Triste a hora em que partiste meu saudoso amigo. Recordo ainda teu cheiro, embalado nesta brisa fria de Inverno, como se ainda aqui estivesses. Partiste sem que notasses, inebriado por uma vida que nunca te trará caminhos virtuosos, sinuosos passos que dás na calada da noite.
Gostaria de te convidar a ficar um pouca mais, a sentares-te comigo naquele banco de escola em que criámos os primeiros laços tal crianças maravilhadas com as primeiras flores da Primavera, no entanto, a tua hora findou e empréstimos o tempo nunca deu. Hipócrita nos tornámos, ignorando a doce noite que se avizinhava nos nossos corações, minando as manhãs que semeámos no vento.
Procuro ainda sinais da tua passagem no meu corpo cansado, exausta me tornei pelas vezes que tentei encontrar um rasgo de ti nessa tua nova mascara, caras que o Diabo te concedeu caprichosamente.
Vejo a manha a chegar...oh, como rezei eu para que este dia nunca chegasse. Abro-te a porta, num silêncio fulcral, e convido-te a sair desamarrando tuas amarras do meu peito, drenando de mim o que resta do sangue que não regelou pela ausência e saudade.
Guardo ,no entanto, a rosa de papel, em sinal de eterno luto e devaneio, para que me lembre para sempre que até uma rosa de papel pode ser a mais bonita do nosso jardim.
Gostaria de te convidar a ficar um pouca mais, a sentares-te comigo naquele banco de escola em que criámos os primeiros laços tal crianças maravilhadas com as primeiras flores da Primavera, no entanto, a tua hora findou e empréstimos o tempo nunca deu. Hipócrita nos tornámos, ignorando a doce noite que se avizinhava nos nossos corações, minando as manhãs que semeámos no vento.
Procuro ainda sinais da tua passagem no meu corpo cansado, exausta me tornei pelas vezes que tentei encontrar um rasgo de ti nessa tua nova mascara, caras que o Diabo te concedeu caprichosamente.
Vejo a manha a chegar...oh, como rezei eu para que este dia nunca chegasse. Abro-te a porta, num silêncio fulcral, e convido-te a sair desamarrando tuas amarras do meu peito, drenando de mim o que resta do sangue que não regelou pela ausência e saudade.
Guardo ,no entanto, a rosa de papel, em sinal de eterno luto e devaneio, para que me lembre para sempre que até uma rosa de papel pode ser a mais bonita do nosso jardim.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
A partida
Olhou pela janela, desviando a fina cortina de linho que a ocultava caprichosamente. Lá fora a noite caia fúnebre, como se também ela pressentisse o findar de mais uma Era. O mundo estáva igual e no entanto, alguma coisa mudara tão drasticamente que os cheiros e as cores pareciam possuídos por uma nova força, um novo encanto, desencanto que para si não chamara.
Deixou cair a cortina, e calmamente sentou-se na cadeira da secretaria. Abriu a primeira gaveta e dela retirou uma caneta e uma folha em branco. Suspirou cansada, ignorando o gilrear dos pássaros no derradeiro recolher.
Principiou numa letra fina e desenha:
"
Querido Bruno:
Espero que a vida te tenha tratado com carinho, daquele jeito selvagens que só ela sabe fazer.
Os anos passaram, e muito do que havia, muito do que se construiu, já não existe. Acho que nos matámos lentamente, quase sem dar por isso, num jogo demasiado complexo de palavras e gestos para que algum de nós saísse vitorioso.
Depois de quatro anos, estou de partida. Não o faço de animo leve, animo esse que tantas vezes me levaram a abrir feridas que o tempo curara. As promessas tornaram-se vazias, folhas que o vento levou numa manhã de Inverno, como aquelas que passámos a acalentar sonhos que se desfizeram na chama dos anos.
É tarde de mais para mudar, e nem creio que algum de nós o conseguisse... Levo comigo os sonhos, o futuro, os desejos, os planos, o coração e a alma... levo para que um dia possa encontrar alguém a quem os dar.
Nada resta a dizer, nem a memória poderá ficar no meu lugar.
Espero que a vida te trate bem, daquele jeito que só ela sabe tratar.
"
Pousou a caneta e de mão tremula e prepotente limpou a última lágrima que derramaria por ele. Suspirou, aliviando os nervosismo que a consumia por dentro. Dobrou a carta em três, depositando-a sobre a cama. Olhou ao seu redor tentando reter aqueles últimos momentos na memória. Ali ela chorara, sorrira, vivera, ali ela se definira como mulher, e hoje, estava de partida carregando o peso dos anos na mala. Sorriu, e como se de um fantasma se tratasse deslizou pela porta, deixando-a fechar-se num solitário e vazio som.
Nada voltaria a ser como antes.
Deixou cair a cortina, e calmamente sentou-se na cadeira da secretaria. Abriu a primeira gaveta e dela retirou uma caneta e uma folha em branco. Suspirou cansada, ignorando o gilrear dos pássaros no derradeiro recolher.
Principiou numa letra fina e desenha:
"
Querido Bruno:
Espero que a vida te tenha tratado com carinho, daquele jeito selvagens que só ela sabe fazer.
Os anos passaram, e muito do que havia, muito do que se construiu, já não existe. Acho que nos matámos lentamente, quase sem dar por isso, num jogo demasiado complexo de palavras e gestos para que algum de nós saísse vitorioso.
Depois de quatro anos, estou de partida. Não o faço de animo leve, animo esse que tantas vezes me levaram a abrir feridas que o tempo curara. As promessas tornaram-se vazias, folhas que o vento levou numa manhã de Inverno, como aquelas que passámos a acalentar sonhos que se desfizeram na chama dos anos.
É tarde de mais para mudar, e nem creio que algum de nós o conseguisse... Levo comigo os sonhos, o futuro, os desejos, os planos, o coração e a alma... levo para que um dia possa encontrar alguém a quem os dar.
Nada resta a dizer, nem a memória poderá ficar no meu lugar.
Espero que a vida te trate bem, daquele jeito que só ela sabe tratar.
"
Pousou a caneta e de mão tremula e prepotente limpou a última lágrima que derramaria por ele. Suspirou, aliviando os nervosismo que a consumia por dentro. Dobrou a carta em três, depositando-a sobre a cama. Olhou ao seu redor tentando reter aqueles últimos momentos na memória. Ali ela chorara, sorrira, vivera, ali ela se definira como mulher, e hoje, estava de partida carregando o peso dos anos na mala. Sorriu, e como se de um fantasma se tratasse deslizou pela porta, deixando-a fechar-se num solitário e vazio som.
Nada voltaria a ser como antes.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
O tempo
Existem momentos em que o tempo nada significa, momentos em que a nossa alma se liberta do corpo terreno e viaja. Momentos que parecem minutos, dias, meses, talvez anos, momentos que somos tão algo mais, tão perfeitos, tão lucidos da vida, tão iluminados que os medos desaparecem e as magoas não existem.
Existem apenas dois momentos assim, quando acalentamos pela primeira vez aquela pessoa que sabemos ser a certa, a Tal, e quando estamos a morrer.
Não existe uma luz ao fundo do túnel, muito embora todos gostem de pensar que ela está lá. Não existe lembrança das dores, nem dos maus momentos. Quando a nossa vida está presa por um fio tão fino, tão quebradiço, tão volátil que a qualquer momento vai desaparecer a única coisa que vemos são os momentos que sorrimos, a única coisa que sabemos é que acabou.
Vemos lentamente o filme passar diante dos nossos olhos, e nós, qual espectadores, assistimos quietos, petrificados por tamanha beleza, ansiosos para que seja eterno. O primeiro amor, o primeiro beijo, os risos, os amigos, a familia, aquela sensação de liberdade quando começámos a andar de bicicleta e o vento desenfreado nos chicoteou a cara avida de tantas emoções. A primeira noite que tomámos consciência que as estrelas e a lua podiam ser nossas, que aprendemos que amar e sorrir podem andar de mãos dadas.
O nosso primeiro sonho tornado realidade, aquela meta que alcançámos com tanto esforço, aquele calor humano que nos aconchegou muitas noites.
Depois disso? Depois disso lembramos do que ficou para fazer, num fel amargo que nos preenche a boca de modo cruel. Do que gostaríamos de ter dito e não dissemos, de quem magoámos, dos que traímos, dos que nunca deixámos entrar na nossa vida, aquele sonho que adiámos todos os dias da nossa existência por pensar que teríamos todo o tempo do mundo. Tempo... tempo que se desvanece lentamente, como numa marcha fúnebre, chegando pacatamente ao seu derradeiro final.
Muitos padecem sem saber o que é amar, sem ter a oportunidade de tentar, sem ter a hipótese de corrigir os seus erros. Mas muitos outros acabam assim, vivos, sobreviventes de uma experiência avassaladora, conscientes por fim que o tempo nada mais é do que um conta relógio que nunca sabemos quando terminará.
Existem apenas dois momentos assim, quando acalentamos pela primeira vez aquela pessoa que sabemos ser a certa, a Tal, e quando estamos a morrer.
Não existe uma luz ao fundo do túnel, muito embora todos gostem de pensar que ela está lá. Não existe lembrança das dores, nem dos maus momentos. Quando a nossa vida está presa por um fio tão fino, tão quebradiço, tão volátil que a qualquer momento vai desaparecer a única coisa que vemos são os momentos que sorrimos, a única coisa que sabemos é que acabou.
Vemos lentamente o filme passar diante dos nossos olhos, e nós, qual espectadores, assistimos quietos, petrificados por tamanha beleza, ansiosos para que seja eterno. O primeiro amor, o primeiro beijo, os risos, os amigos, a familia, aquela sensação de liberdade quando começámos a andar de bicicleta e o vento desenfreado nos chicoteou a cara avida de tantas emoções. A primeira noite que tomámos consciência que as estrelas e a lua podiam ser nossas, que aprendemos que amar e sorrir podem andar de mãos dadas.
O nosso primeiro sonho tornado realidade, aquela meta que alcançámos com tanto esforço, aquele calor humano que nos aconchegou muitas noites.
Depois disso? Depois disso lembramos do que ficou para fazer, num fel amargo que nos preenche a boca de modo cruel. Do que gostaríamos de ter dito e não dissemos, de quem magoámos, dos que traímos, dos que nunca deixámos entrar na nossa vida, aquele sonho que adiámos todos os dias da nossa existência por pensar que teríamos todo o tempo do mundo. Tempo... tempo que se desvanece lentamente, como numa marcha fúnebre, chegando pacatamente ao seu derradeiro final.
Muitos padecem sem saber o que é amar, sem ter a oportunidade de tentar, sem ter a hipótese de corrigir os seus erros. Mas muitos outros acabam assim, vivos, sobreviventes de uma experiência avassaladora, conscientes por fim que o tempo nada mais é do que um conta relógio que nunca sabemos quando terminará.
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