Existem erros que nos marcam, facas se cravam num corpo demasiado mutilado para reconhecer o certo e o errado. Existem dias assim, que paramos por obrigação e pensamos no que passou, no que deixámos por dizer, o que dissemos demais, o que aproveitamos de menos. Utópica ilusão que tudo dura para sempre, que os dias são anos, e os minutos meros caprichos do tempo. E assim é, a história de uma vida, curta ou demasiado comprida, para se calcular as perdas e os ganhos, para valorizarmos o que temos, lamentarmos o perdemos, sorrir nas desventuras de uma jornada. Por mais que o caminho seja o certo, somos sempre obrigados a reconhecer as perdas, a olhar para uma foto em que não existimos, a relembrar com saudade o que foi feito, um tempo e um espaço colado no passado em que tivemos um pouco mais, em que somos outros dentro de nós, um fantasma pálido da nossa existência.
E mudam-se as vontades, os feitios, moldam-se a alma às tristezas e o corpo ás alegrias, foge-se das imperfeições. Somos todos castelos na areia, tão sólidas ao sol, tão frágeis ao mar...
E somos todos feitos da matéria, do mesmo molde, olhamos todos para o mesmo céu, absorvendo a noite e o seu encanto, o seu devaneio como se fosse nosso. A saudade é um capricho do coração, demasiado mal treinado para se anular.