domingo, 28 de novembro de 2010

Saudades


Existem erros que nos marcam, facas se cravam num corpo demasiado mutilado para reconhecer o certo e o errado. Existem dias assim, que paramos por obrigação e pensamos no que passou, no que deixámos por dizer, o que dissemos demais, o que aproveitamos de menos. Utópica ilusão que tudo dura para sempre, que os dias são anos, e os minutos meros caprichos do tempo. E assim é, a história de uma vida, curta ou demasiado comprida, para se calcular as perdas e os ganhos, para valorizarmos o que temos, lamentarmos o perdemos, sorrir nas desventuras de uma jornada. Por mais que o caminho seja o certo, somos sempre obrigados a reconhecer as perdas, a olhar para uma foto em que não existimos, a relembrar com saudade o que foi feito, um tempo e um espaço colado no passado em que tivemos um pouco mais, em que somos outros dentro de nós, um fantasma pálido da nossa existência.
E mudam-se as vontades, os feitios, moldam-se a alma às tristezas e o corpo ás alegrias, foge-se das imperfeições. Somos todos castelos na areia, tão sólidas ao sol, tão frágeis ao mar...
E somos todos feitos da matéria, do mesmo molde, olhamos todos para o mesmo céu, absorvendo a noite e o seu encanto, o seu devaneio como se fosse nosso. A saudade é um capricho do coração, demasiado mal treinado para se anular.

sábado, 20 de novembro de 2010

O bichinho das consequências


Ninguém disse que seria fácil assumir as consequências dos teus actos, muito menos das palavras que ficaram por dizer. Ninguém te disse que o mundo parava cada vez que tu estivesses demasiado febril de emoções para pensar. Se alguém o fez, mentiu-te.
As consequências são bichinhos irrequietos que vivem em perfeita simbiose com os bichinhos decisões, alimentando-se da sua força, da sua energia, da sua convicção seja ela grande ou pequena. O mundo é um lugar ardiloso, cheio de manhas e manias, dotado de uma força indestrutível capaz de te aniquilar com um simples pensamento. E com tantas tempestades, tormentas e abismos, como é que existem vencedores numa história apenas talhada para vencidos?
Os vencedores são tão humanos como tu e eu, tão incredulamente reduzidos à sua mortalidade certa, ao seu desencanto natural pela vida, ás suas virtudes que num passado ou num futuro lhes será cobrado. Contudo, são pessoas, seres naturalmente humanos, que conhecem muito bem os caminhos da morte, da vida, que sabem meticulosamente o peso dos pensamentos, as gramas da alma, os quilos que as costas talhadas por chagas conseguem aguentar. E onde tantos tombam, onde muitos outros padecem, eles sorriem. Desafiam a vida, com a mesma astúcia e coragem com que um marinheiro desafia o mar bravio, consciente da morte mas focado no horizonte. Há quem nunca venha a possuir este dom, que viva por viver, que se refugie em si á mínima gota de chuva. Há quem caia sem se levantar e rasteje o resto do caminho, há quem desconheça o que é sentir e mesmo sem o saber sinta.
Ninguém te disse que viver era fácil, principalmente quando a falta de resistência ao tempo e ás consequentes é inerente ao teu ser. Ninguém disse que poderias colar para sempre a tua alma, que os estilhaços iram sempre encaixar, que o espelho iria sempre mostrar o que desejas ver. A chave da vitória é aceitar que por vezes não existem dias de sol, que o coração não é indestrutível, que chorar faz parte e rir é um privilégio, que as acções têm consequências mesmo quando a balança em que as pesas falha.
Nunca ninguém te disse, mas hoje sou eu quem digo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Quem podes ser

Fecha os olhos e tira as tuas conclusões. Medita sobre quem és, sobre o que esperas, sobre quem podes ser. Mantém os olhos fechados, mesmo quando o mundo gritar demasiado alto aos teus ouvidos e o teu coração estremecer de raiva e amor. Mantêm-te firme no teu lugar, cerra os dentes e os pulsos e combate sem perder os sonhos e a ilusão da vitória. Sabe perder quando a batalha já nada te trouxer de bom, admite a derrota de cabeça erguida mesmo que o sangue da guerra te turve o pensamento.
Pega na alma e engole os segredos, engole quem foste, engole o tempo e o espaço com a mesma coragem com que engoliste a perda. Esquece o passado sem esquecer as lições, rasga a pele sem tocar nos nervos que te mantêm viva. Faz das lágrimas tuas vitórias, do sangue tuas derrotas, dos estilhaços tuas cruzes que mal ou bem hás-de carregar pela vida fora.
Levanta o corpo cansado, mesmo que o peso seja insuportável, e anda. Vira as costas a quem amaste, a quem amou, a quem deixou de amar, a quem nunca conheceu o valor das palavras, quem se cegou pela falta delas.
Respira uma vez, e outra e mais outra… Respira as vezes que forem necessárias, espanta teus fantasmas, teus espíritos, teus dons, tuas visões desfocados do futuro, tuas marcas, tuas historias mal fadadas. Olha o mar com os olhos de quem nunca o viu, olha o presente com a alma de quem nunca viveu. Deixa-te cair uma vez, e outra e mais outra…até que conheças o chão que trilhas. Conhece-te. Conhece-te como nunca ninguém te conhecerá, cada recanto, cada canto e abismo, cada falésia, cada campo de trigo que cultivas tão singelamente dentro dessa bola de cristal que tu és.
Renova tuas verdades, tuas sabedorias, teus modos e teu carácter, renova quem és até á exaustão da perfeição. Olha-te ao espelho, finca cada ruga, cada traço, cada expressão, finca a alma se for preciso!
E no dia que não houver mais verdades para descobrir, nem trilhas para caminhar, nem mundos para conhecer, quando cada pessoa que te rodeia for o teu porto, quando as magoas forem passado e mesmo esse estiver esquecido, abre os olhos. Abre os olhos, o peito, a vida, os amores, e as tristezas, os corações que roubaste, a sorte que deitaste ao vento  , o azar que semeaste, os frutos que colheste. Abre as asas e voa! Quando as estradas acabam, ainda há muito céu para desvendar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Histórias de encantar


As histórias infantis criaram uma geração de desencantados com a vida. Milhares de almas perdidas em busca de príncipes encantados, de sapos enfeitiçados, de princesas perfeitas com as medidas certas, de histórias de amor que duram para sempre.
Não existem princesas, existem genes favoráveis e cirurgiões plásticos a enriquecer com a falta de neurónios. Não existem príncipes, existem homens normais, cheios de defeitos e de virtudes, que ainda pensam que dos 17 aos 30 anos ainda são adolescentes, que a cerveja da tasca é o ponto alto do dia e a vizinha do lado uma milf que não se importavam de montar. Os sapos morreram num trágico acidente ecológico, ou então andam por ai, a pensarem que são o maior achado que uma mulher pode ter. Desenganem-se meninos, o melhor achado de uma mulher foram as unhas de gel, o melhor amigo que é gay e uma garrafa de moscatel. E as histórias de amor têm a validade de um pacato de bolachas.
Não existem príncipes, nem sapos nem princesas. Existem mulheres que procuram um homem que dê o mínimo de problemas, que seja engraçado, bonito e bom na cama. Que não nos pague as contas mas a divida connosco, que até gosta de cerveja mas não chega podre de bêbedo a casa todos os dias, que não abdica dos amigos nem das amigas, que saiba debater quer ganhe ou não, que goste da nossa mãe mas não muito, que acredite que até pode ser o certo mas não pensa nisso muitas vezes, que nos desafie em todos os campos e mais alguns. O certo não nos sorri todos os dias, sorri quando lhe apetece e deve.
Quando uma mulher chega a estas conclusões todas e as aceita, mete de lado as histórias infantis e conclui a majestosa frase que um dia um amigo me disse:
“ Não queiras o príncipe encantado, ele é fútil. Prefere antes o lobo mau, ele ouve-te e come-te melhor”

sábado, 6 de novembro de 2010

Remente: A Própria


Dissolvida na minha mente me encontro, perdida entre afagos, lembranças, saudades que não sei bem definir. Descanso o corpo cansado sem conseguir arrancar do pensamento as dores que me afogam o peito, me queimam o sangue, me gelam a alma. Perco-me nas horas, o fio que me conduz pela noite desconhecida.
As lágrimas do passado dissipam-se nos sorrisos, as recordações baralham-me os sentidos, e o cheiro da madrugada embebeda-me a razão. Nada me resta para perder, a sanidade nunca entrou neste jogo nem nunca poderá entrar. Tantos cheiros, tantas conversas, tantas frases levadas pelo vento que nos assolou, horas demais, anos infinitos que nem dei por passar.
Assobio no silêncio perpétuo aquela música, aquela letra que nos fazia recordar do nosso canto, o nosso momento. E agora, agora sei que parei. Parei para me ver, para me sentir, para me saborear só um pouco mais antes de voltar a ler-te, tocar-te, aninhar-te. Só mais um pouco de mim, só mais uma história, só mais um filme, uma novela, só mais uma queda para saber de cor o agressivo do chão.
Deixa-me viver mais cinco minutos, escolher mais uns caminhos, mais uns destinos para que no fim tenha muito para te contar. Teus olhos reflectindo o meu orgulho, espelhos que um dia estilhacei sem pensar, partindo-te no mesmo instante em que me parti.
Depois de me definir, me redimir, me reconstruir será que voltas? Será…?
Tudo um dia tem um fim, o momento que fechamos o livro e deixamos de escrever, nada mais haverá a dizer. Fecho os olhos, imagino esse dia…
Construí um banco na estrada, onde me sento sempre que o caminho é demasiado penoso…nunca pensei que tivesse a medida para dois, e tu, só tu, encaixas bem demais nele.


 2007

A tua ausência


Sabe bem chegar a casa, pousar a mala no sofá com a mesma rapidez com que me liberto do cansaço de mais um dia.
Talvez por excesso ou defeito, não sei bem, já me tinha esquecido como é fácil viver sem ninguém a quem responder, a quem informar, a quem dar cinco minutos do meu tempo. Talvez seja este o começo, o princípio da estrada que quero percorrer. Nada me restava nesse canto, e no final de contas, o que é um canto quando se pode ter o mundo inteiro como abrigo? Júbilo a cada passo que dou sozinha, a cada conquista em que sou conquista, pequenas vitorias que dissimulo no barulho acolhedor do relógio.
 Talvez hoje me sinta um pouco sonolenta, um pouco farta, um pouco enraivecida. Oh, e como sabe bem viver a minha raiva em privado.
 Talvez amanha te ligue, te mande uma mensagem, um email, uma nota na porta… quem sabe…quem sabe se amanha não é apenas mais um dia, apenas mais um… dos tantos que sei viver sem ti.


Dedicado a uma grande mulher que sabe como viver