A ti brindei quando as badaladas estremeceram meu coração. Por ti chorei quando me fizeste tombar, a ti roguei quando dos desejos não fiz actos, e dos actos fiz destruição. Apenas quero viver, sem freio, sem caminho nem estrada, sem ruido, sem amarras que me condenem a sitio algum. Sou daqui, e sou dali, sou de todo o sitio, cada dia numa paragem diferente. Se o vento é livre, e nunca julgado por isso,porque haveria eu de não o ser também?
Faço minhas regras, desfaço minhas verdades, convições que apenas me prendem a uma vida que não é a minha.
A ti brindei, quando novo me chegaste e promissor me pareceresseste. Agora, tão perto do teu derradeiro leito, resta-me apenas agradecer os teus sorrisos com a mesma falsidade na voz com que te agradeço as dores. Troco o azul pelo vermelho, a água pelo vinho, a vida prospera por uma curta e acelerada. Apenas quero viver enquanto este fogo me arder no peito aberto, enquanto meus passos me levarem ao incerto, aos amores, aos inimigos, aos amigos e ás perdas, a todos.
Porque afinal de contas, muito do que existirá já existe, só precisava de ser descoberto...
Adeus 2010, e bem-vindo 2011!
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Carta ao Destino
Querido Destino:
Escrevo cartas ao além, numa esperança vã de acalmar os fantasmas que me povoam as noites. Por vezes tenho de parar, quando a fina linha da loucura enfraquece subjugando meus sentidos ao doce caos da discorda. Sempre estive aqui para ti, nas horas que me falhaste, nos momentos que derrotada me ajoelhei aos teus pés e pedi clemência. Saudade ingrata que me desnuda as memórias, fazendo-me questionar quem seria se no teu tribunal não fosse julgada. Amada me tornei num dos teus caprichos, no mais perfeito desafio que alguma vez já teceste, tu, senhora de um tear infinito onde és dona e rainha da verdade.
Já te desafiei, de mão branda e prepotente a ti roguei, numa reza que transcende o tempo e o espaço a que me condenaste. Por ti chorei, quando de mim apartaste meus amores, minha família, meus sentidos e meus risos, desatinos de moça menina. Mulher me construí, na tristeza e na dureza dos teus caminhos, na calmaria dos teus mares, mundos nunca antes pisados por meros mortais.
Se apenas hoje te escrevo, foi porque no passado tua morada esqueci, cega pela ira que outros cultivaram em mim. Que no silêncio tu sejas a voz, que nos abismos tu sejas a ponte, e quando por fim tudo tiver terminado, que tuas asas sejam o abrigo.
Querido Destino, aceita-me na tua derradeira morada, como um eu te aceitei no meu derradeiro caminho.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Aos amigos
Quando eu cai tu estiveste lá, quando tudo deixou de fazer sentido tu estiveste lá. Chorámos e rimos, numa confusão hilariante de sentimentos, estados, cansaços e virtudes. Meus passos são os teus, e da minha sombra fiz dezenas. Sem ti não teria derrubado barreiras, e as muralhas altas da vida ultrapassei porque me pegaste, e bem alto nos teus ombros me ergueste mesmo quando o peso era demasiado para o teu corpo também frágil pelos altos e baixos da tua vida. Nem sempre estiveste, e sei que nem sempre estarás, mas que relevância tem a tua presença física se vives aportado no meu coração?
Numa vida cheia de amores e encontros, são no final do dia tu a quem recolho, vencida ou vencedora, para me aninhar docemente no teu sorriso, nas tuas palavras, na tua essência.
Nem sempre concordamos, nem sempre estamos bem, nunca a tua opinião é a minha, e no final somos faces da mesma moeda, criaturas encurraladas num labirinto confuso de desencantos, derrotas, felicidade, doce delírio que nos apodera da alma.
Sem ti, eu não seria quem sou, porque amigo é respeito, sinceridade e fundamentalmente amor.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
O fim
Acabou. Adiámos vezes demais o final iminente, crucificámos desejos, feridas, fantasmas que alimentámos em noites tenebrosas. Penhorámos as nossas almas, confiscámos corações, grilhões que o tempo enferrujou.
Hoje me liberto, prisioneira dos meus próprios medos, inseguranças que deixei acomodar numa mente demasiado irrequieta para sobreviver às tempestades furtivas do destino. Nada resta a dizer, fazer, viver numa batalha que jamais almejei. Resta apenas zarpar, abandonar esta praia, abrir as velas, içar a âncora e navegar, partir por fim.
Existem mundos além deste céu, e ate as forças me faltarem, ate o sangue se drenar das minhas veias, eu quero navegar, acalentar em mim o doce abrigo de mais uma história.
Deixo para trás o passado, o trago amargo de uma derrota, as convicções que me serviram de estrutura. Deixo te para trás, figura pálida que me acena onde outrora construí meus castelos, fortalezas que o mar saudoso derrubou. Deixo para trás o Inverno de uma vida, curta é certo, demasiado comprida na realidade. Toca-me… saboreia o sal que resta, tacteei tuas verdades, busca tuas promessas e desfaz-te delas, deita-as ao vento, colhe as tempestades, aparta-te do que restou.
Numa vida repleta de decisões, são as que fazemos de olhos vendados que nos absorvem a felicidade.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Voltar ao passado
É na passagem vertiginosa do tempo que construímos castelos, casas, paredes e alicerces que nos definem, nos compõem, nos moldam já que a mudança nos é negada na condição mortal a que um ser superior nos condenou.
De todos os males que padecemos e padeceremos, das doenças aos sentimentos, é a saudade que mais nos corrói a alma, devorando lentamente um coração enfraquecido pelos altos e baixo da vida. É legítimo, humano até, sentir pesar pelo que passou, pelos momentos perfeitos, pela angústia de nada resistir ao tic tac de um relógio.
E se todos voltássemos atrás, se o tempo fosse algo constantemente violado pelos nossos desejos e caprichos? Oh doce caos que seria, se pudéssemos aperfeiçoar todos os momentos, remendar os erros, ciclo infinito onde a alma pereceria. Que seria do presente, do futuro, que buscamos teríamos, que batalhas escolheríamos? O segredo está em aceitar que tudo mais tarde ou mais cedo muda, e o conforto do seguro tem os seus encantos, que o presente existe porque num passado, perfeito ou imperfeito, vivemos.
Desamarra teu barco do porto da saudade e deixa que o vento te leve pelo mar bravio, pela calmaria, pela aventura de mais um dia.
Para uma grande amiga
domingo, 5 de dezembro de 2010
O filme chamado vida
Nas voltas da vida, tudo o que se precisa é de um dia para a alma, umas horas para o coração, uns segundos para o cérebro. Quando a imensidão do mundo nos engole, e o silencio perpetuo invade a noite sem convite, sem aviso, sem perguntar.
Nas cinzas das horas definimos caminhos, estratégias e batalhas, onde queremos morrer e viver, onde marcamos o nosso porto seguro, onde tudo faz sentido porque sim, simplesmente porque sim. Criamos então a nossa imagem, quem deixamos de ser e quem podemos ser, quem realmente queremos que nos construa. Porque existe sempre alguém que nos constrói, que no molda e nos define como pessoa, humano, como ser de corpo e alma, de sangue e carne.
É na euforia das horas, na criação meticulosa da nossa teia de aranha que sabemos quando algo acabou, quando algo começou, quando o tic tac do relógio nos revela a passagem temerosa do tempo, o tic tac do que nos resta viver.
E é do medo que se criam os piores inimigos, quando as certezas caem por terra e nos derrubam, quando a tempestade é mais forte do que o barco que nos acolhe.
É de escolhas que a vida é feita, dessas pequenas decisões aparentemente tão inocentes e insignificantes que mudam a destino, nos colocam de pernas para o ar a ver o filme da nossa vida.
Abre os braços, eu deixei-me voar, e tu, vais ficar a ver?
Nas cinzas das horas definimos caminhos, estratégias e batalhas, onde queremos morrer e viver, onde marcamos o nosso porto seguro, onde tudo faz sentido porque sim, simplesmente porque sim. Criamos então a nossa imagem, quem deixamos de ser e quem podemos ser, quem realmente queremos que nos construa. Porque existe sempre alguém que nos constrói, que no molda e nos define como pessoa, humano, como ser de corpo e alma, de sangue e carne.
É na euforia das horas, na criação meticulosa da nossa teia de aranha que sabemos quando algo acabou, quando algo começou, quando o tic tac do relógio nos revela a passagem temerosa do tempo, o tic tac do que nos resta viver.
E é do medo que se criam os piores inimigos, quando as certezas caem por terra e nos derrubam, quando a tempestade é mais forte do que o barco que nos acolhe.
É de escolhas que a vida é feita, dessas pequenas decisões aparentemente tão inocentes e insignificantes que mudam a destino, nos colocam de pernas para o ar a ver o filme da nossa vida.
Abre os braços, eu deixei-me voar, e tu, vais ficar a ver?
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Loucuras
Revoltam-se as entranhas da terra, fervilhar de emoções, conspirações que o Diabo ousou criar em noites de lua cheia. Vagueias por esses becos obscuros, desvendando segredos, presságios, sangue que te mancha as mãos saturadas de pecados. Pecadores nos tornámos!
Se me encontrares, nas noites em que também eu passeio, finge que não me conheces, rasga-me a pele desnudando os sentimentos, coração demasiado frágil e febril para ripostar. Cria mundos, fantasias, cria vidas em fios de navalha enquanto eu brinco no baloiço que partimos, onde o chiar do ferro já velho me embala, me inebria os sentidos saturados dos sons do mundo.
E se a consciência me falhar? Se a loucura de mais uma aventura me cegar? Se o sonho se partir tal cristal nas minhas mãos? Achas que alguém vai notar? Sorrio, tenebrosos os caminhos em que naufragamos sob céus estrelados. Quando nada se tem a perder, o ganho é o doce riso da demência.
A pedido de algumas pessoas deixo aqui algo mais "dark"
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