Olhou pela janela, desviando a fina cortina de linho que a ocultava caprichosamente. Lá fora a noite caia fúnebre, como se também ela pressentisse o findar de mais uma Era. O mundo estáva igual e no entanto, alguma coisa mudara tão drasticamente que os cheiros e as cores pareciam possuídos por uma nova força, um novo encanto, desencanto que para si não chamara.
Deixou cair a cortina, e calmamente sentou-se na cadeira da secretaria. Abriu a primeira gaveta e dela retirou uma caneta e uma folha em branco. Suspirou cansada, ignorando o gilrear dos pássaros no derradeiro recolher.
Principiou numa letra fina e desenha:
"
Querido Bruno:
Espero que a vida te tenha tratado com carinho, daquele jeito selvagens que só ela sabe fazer.
Os anos passaram, e muito do que havia, muito do que se construiu, já não existe. Acho que nos matámos lentamente, quase sem dar por isso, num jogo demasiado complexo de palavras e gestos para que algum de nós saísse vitorioso.
Depois de quatro anos, estou de partida. Não o faço de animo leve, animo esse que tantas vezes me levaram a abrir feridas que o tempo curara. As promessas tornaram-se vazias, folhas que o vento levou numa manhã de Inverno, como aquelas que passámos a acalentar sonhos que se desfizeram na chama dos anos.
É tarde de mais para mudar, e nem creio que algum de nós o conseguisse... Levo comigo os sonhos, o futuro, os desejos, os planos, o coração e a alma... levo para que um dia possa encontrar alguém a quem os dar.
Nada resta a dizer, nem a memória poderá ficar no meu lugar.
Espero que a vida te trate bem, daquele jeito que só ela sabe tratar.
"
Pousou a caneta e de mão tremula e prepotente limpou a última lágrima que derramaria por ele. Suspirou, aliviando os nervosismo que a consumia por dentro. Dobrou a carta em três, depositando-a sobre a cama. Olhou ao seu redor tentando reter aqueles últimos momentos na memória. Ali ela chorara, sorrira, vivera, ali ela se definira como mulher, e hoje, estava de partida carregando o peso dos anos na mala. Sorriu, e como se de um fantasma se tratasse deslizou pela porta, deixando-a fechar-se num solitário e vazio som.
Nada voltaria a ser como antes.
Sem comentários:
Enviar um comentário