Existem dias que não noto a passagem do tempo, vertiginosa correria que aparte de mim os sentidos, a consciência, as definições dos erros que em enredos do demónio teci.
Mudámos a definição de quem somos, vagabundos na nossa própria vida, pedintes de sonhos e esperanças, esmolas que nem anjos nos podem dar. Fizemos da noite nossa companhia, amiga, inimiga, espectadora mortífera de cada passo que damos em direcção ao abismo. Narramos historias ás pedras da calçada, bancos que nos viram sentar, vento que nosso lamento roubou.
Riscamos dias do calendário, contagem que nos mata em surdina, menina que por ti aclama no chiar ruidoso de um baloiço sem guia. Que é feito da tua companhia? Desaparecida, desvanecida num filme sem actores, nem peças, nem historia, apenas esta triste memoria que te inebria a alma flagelada. Conta-me como é? Como é querer esquecer sem conseguir, a que sabe o mar sem que nunca o horizonte possas alcançar?
Conta-me, pois eu sei que ai estarei no final do dia. Cansada, esgotada, aniquilada, vencida e vencedora de um jogo que criei com as minhas próprias mãos! Perdemos tanto tempo a definir sentimentos, sonhos, ambições, tempos, medos, contra-sensos que nos fizeram crescer. E houve dias que pensei que nunca aqui chegaria, acho que apenas me perdi , tentando ser alguém que nunca desejei ser.
Ultimamente tenho pensado, parado, deixado o tempo correr, apreciando o abrandar do mundo, a luz que nunca me deixou de iluminar. E derradeiramente, é hora de nos fazermos à estrada, que nossos caminhos não sejam fachada, farsa que por tanto tempo em nós habituou. Senta-te aqui um pouco, descansa, deixa que a brisa te beije, encosta-te a mim, ainda há tanto para contar, é difícil explicar todas as verdades que um coração esconde. Senta-te, apesar de tudo, este banco sempre foi feito para dois .
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